03/12/09

.: QUADRINHOS .: Alô, alô, Gilberto Dimenstein!

Paulo Francis era um sujeito que tinha gosto pela polêmica. Era homem de opiniões fortes, nem sempre das mais fáceis de se acompanhar, mas também gostava de colocar lenha na fogueira, de gerar discussão com suas frases de efeito, atiradas como bombas de fumaça para desnortear as pessoas. Paulo Francis disse, certa vez, que achava os quadrinhos uma sub-arte. Eu não concordo, como pode ser notado por todo este blog. Mas continuo gostando do cara, Odin o tenha. Posso não estar de acordo com algo que ele disse, cada um tem a sua opinião, liberdade total. Isso não me faz respeitar menos ou mais o Francis como profissional. O mesmo acontece com o Gilberto Dimenstein.

Nesta quinta (3), Dimenstein escrever um curto comentário em seu espaço na área de colunas do site da Folha de S.Paulo, criticando a decisão do Governo federal de incluir jornais, revistas e afins como parte das atribuições do chamado vale-cultura. "Comentei aqui por diversas vezes que considero o vale-cultura um previsível desperdício", disse, para depois completar: "Desde ontem, meu receio aumentou ainda mais, pela possibilidade de que, com esse benefício, mulher pelada também seja cultura. Ou gibi". Com "mulher pelada", ele fala sobre a possibilidade da Playboy poder ser comprada com o vale-cultura. Continuo tendo o maior respeito pelo Dimenstein, um sujeito cuja atuação no âmbito educacional e social é louvável. Mas preciso dizer que, desta vez, ele falou uma besteira sem tamanho. Ele deu a opinião dele e eu, no blog que me pertence, dou a minha.

Dimenstein, concordo que o vale-cultura é um projeto deveras estranho, desde o seu conceito inicial. Acho que o dinheiro que será investido nele funcionaria melhor sendo revertido para a educação e para projetos culturais que permitam a inclusão social, projetos culturais gratuitos, na periferia. Seria uma forma mais inteligente de colocar as classes menos favorecidas em contato com a cultura. Consumindo com integração. Maaaaaaaaas...com isso dizer que gibis não podem ser considerados cultura, vamos devagar com o veneno. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.


Se HQs não são cultura, é preciso avisar todos os críticos que consideram Neil Gaiman e Alan Moore dois dos maiores escritores vivos - e quando digo "escritores", não quero dizer "escritores de quadrinhos". Quero dizer "escritores", ao lado de outros nomes da literatura, ombro a ombro, sem dever nada a ninguém. Alguns posts abaixo, eu falo de títulos como "Retalhos" e "Persépolis". Procure um dos dois, vale a pena. Foram, ambos, citados na Ilustrada, da Folha de S.Paulo (olha só, hein?) como obras de excelente qualidade cultural. Também vale ficar de olho no trabalho de brasileiros como os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. Ou nesta nova fase filosófica do Laerte, publicada naquela área de tirinhas da mesma Folha de S.Paulo que você bem conhece. Se aquilo não é arte, não é cultura, penduro meu chapéu agora. Não que eu use um chapéu, é claro.

E ainda é preciso lembrar que quadrinhos são usados há décadas como ferramentas educacionais, meu caro. O mestre norte-americano Will Eisner que o diga. Caso queira mais detalhes, recomendo que converse com o colega Paulo Ramos, do Blog dos Quadrinhos. Ele até escreveu um livro sobre o assunto, que achas de dar uma lida nele?

Quadrinhos ganharam um baita espaço nas livrarias, você tem ido a alguma recentemente? E títulos de excelente qualidade têm inundado as bancas. Aliás, nem precisa ir muito longe. Mesmo os quadrinhos de super-heróis e/ou da Turma da Mônica, um verdadeiro patrimônio nacional, podem sim ser considerados cultura. São um tipo de leitura que desafia a inteligência, que ajuda a desenvolver o gosto pela leitura. Não são poucos os estudos que comprovam isso, inclusive. Não é necessário ter a profundidade de um Machado de Assis para instruir e/ou provocar o leitor. Ou para você cultura é apenas aquilo do chamado âmbito erudito? Apenas música clássica, MPB, samba e bossa nova podem ser considerados cultura? Rock não é um fenômeno cultural que pode transformar uma comunidade? Ou mesmo o rap? Ou quem sabe o funk carioca, gostos pessoais à parte? Tsc, tsc. Tem alguém aí precisando mesmo de uma reciclagem. Cultura não pode ter esta definição tão restrita. Não faz bem a ninguém.

Continuo respeitando você, Gilberto Dimenstein. Mas tá na hora de você ler mais gibis, apenas pra variar um pouco. Ou você acha que alguém inventou otermo Nona Arte só por que era bonitinho? :-)

.: FRASE DA SEMANA .: Dee Snider (Twisted Sister)

"Quando pessoas fora do metal fazem os chifres, é uma brincadeira conosco? Algumas vezes pode ser, outras vezes é como 'Ei, olhem! Eu sou legal, estou fazendo os chifres!' Não, você não é nada legal! É assim que funciona. Algumas pessoas me perguntam o que eu planejo com isso - estou pensando que se isso se tornar um viral, e se tornar uma peça de conversação (e realmente explodiu na semana passada, começou a entrar muita imprensa nisso, tive que aumentar cinco vezes a banda do site para manter os números). Se as pessoas começassem a falar sobre isso, se isso se tornasse conversação e as pessoas ficassem alertas, talvez da próxima vez quando eles estivessem fazendo uma foto de família e não tiverem nada para fazer com as malditas mãos, eles não farão os chifres. Deixe os velhos dedos [do meio] para cima, como nos velhos dias! Não sabem o que fazer com suas mãos? Façam o símbolo de 'OK'. Deixem os chifres para os headbangers!"

Trecho de entrevista concedida ao site Metal Storm a respeito do recém-lançado site http://www.takebackthehorns.com/. O site tem o humor típico de Snider, que é um piadista de mão cheia. Não deixa de ser uma brincadeira do cara, isso é fato. Mas uma daquelas em um provocativo tom de verdade, eu diria. Se até nos shows da Hannah Montana (vide foto acima) e dos Jonas Brothers vemos fãs fazendo os chifres do metal, é sinal de que o símbolo vem sendo usado BEM fora do contexto... :-)

30/11/09

.: MÚSICA .: Review Show .: AC/DC (27/11, Estádio do Morumbi, São Paulo/SP)

Quando o show da banda australiana AC/DC foi anunciado no Brasil, como parte da bem-sucedida turnê do disco “Black Ice”, certos jornalistas da imprensa especializada apressaram-se em estampar manchetes dizendo que eles eram uma das maiores bandas de rock do mundo. Você consegue dizer exatamente o motivo? Pois quem esteve no Estádio do Morumbi nesta sexta, 27, integrando um mar de chifrinhos brilhando em vermelho nas arquibancadas e pista lotadas, sabe a resposta na ponta da língua.

E não tem nada a ver com a superprodução de sons, luzes e explosões, com o palco de 78 metros de largura ou com a locomotiva de seis toneladas que se posicionava ao fundo dos músicos. Tem a ver com todo o vigor e a atitude que estes senhores roqueiros ainda mantêm, apresentando seu som básico e sem frescuras com uma energia que dá gosto. Tem a ver com a eletricidade que percorreu as mais de 65.000 pessoas presentes quando o guitarrista Angus Young executou o riff lendário de “Back in Black” saltitando pelo palco em seu figurino típico de colegial e com a perninha levantada. Aquela cena é um clássico absoluto, que não pode faltar no currículo de qualquer sujeito que chame a si mesmo de “fã de rock”. Este é o real motivo pelo qual se pode dizer que o AC/DC é uma das maiores bandas do mundo.

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.: MÚSICA .: Review CD .: Ninguém Beija como as Lésbicas (Velhas Virgens)

Dá gosto ver que, mesmo depois de duas décadas de carreira, os paulistanos da banda das Velhas Virgens não se acomodaram. Depois de voltarem à sacanagem roqueira com força total em “Cubanajarra” (2006), uma recuperação surpreendente após o sem graça “Com a Cabeça no Lugar” (2004), o sexteto vai além em seu novo disco de inéditas, “Ninguém Beija como as Lésbicas”. É um álbum que refina ainda mais a mistura de rock clássico e blues do grupo, chegando a flertar com o punk e com o ska em algumas faixas, sempre com doses generosas de vigor e energia. As letras ainda viajam pelos conhecidos temas do sexo, da cerveja e da cafajestagem. Mas o ouvido mais atento vai perceber, nas entrelinhas, que estes caras estão sabendo envelhecer e enxergar a vida com muita sabedoria…

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24/11/09

.: QUADRINHOS .: Gibis com um olhar sobre o ser humano

Apesar de ser ávido leitor de gibis de super-heróis, preciso dizer que sou um apaixonado por histórias em quadrinhos. Ponto. Nunca deixei que qualquer Batman ou Homem-Aranha me impedisse de ler também outros gêneros – em especial aqueles mais adultos, urbanos e contemporâneos, que deixam de lado os fantasiados superpoderosos para falar de seres humanos comuns. E como observador da vida cotidiana e dos personagens típicos de uma grande cidade, não tinha ninguém melhor do que Will Eisner. Ganhei de presente de aniversário de casamento o encadernado Nova York – A Vida na Grande Cidade, que reúne quatro graphic novels do mestre da Nona Arte: “Nova York - A Grande Cidade”, “O Edifício”, “Caderno de Tipos Urbanos” e “Pessoas Invisíveis”.

Constantemente lembrado por seu genial trabalho com o detetive mascarado “The Spirit”, para mim Eisner sempre mostrou muito mais brilhantismo à medida que envelheceu, em sua fase pós-Segunda Guerra Mundial. Foi quando seu olhar se voltou para a vida própria que tinham as ruas e vielas de Nova York, metrópole pela qual sempre foi apaixonado. Seu traço, mais do que amadurecido, oferece diagramação até hoje inovadora e surpreendente, além de uma utilização brilhante de luz e sombra e expressões faciais que transmitem emoções absolutamente genuínas. Como se não bastasse, o encadernado traz uma série de histórias que permanecem atuais e que poderiam ser ambientadas em qualquer grande cidade do mundo.

Em “Nova York - A Grande Cidade”, Eisner mostra pequenas histórias ligadas a temas como metrôs, escadarias, janelas, paredes. Já “O Edifício” é quase uma fábula, que interliga quatro fantasmas a um único prédio antigo, demolido e transformado num moderno aglomerado de escritórios. Inédita por aqui, “Caderno de Tipos Urbanos” revela o próprio Eisner como personagem, fazendo anotações da correria cotidiana. E “Pessoas Invisíveis”, também nunca publicada no Brasil, mostra três brilhantes contos sobre moradores que são praticamente esquecidos em meio à multidão.

Em comum, as quatro obras aqui reunidas têm em comum o tema da solidão nos ambientes urbanos, das pessoas que vivem verdadeiras histórias épicas que nos passam completamente despercebidas entre arranha-céus monstruosos e todo o barulho de motores. Este olhar de Eisner é surpreendentemente delicado e ao mesmo tempo amargo e sofrido, com o qual eu e você podemos nos identificar facilmente. Pois é, Frank Miller. Por mais que você tenha criado “Sin City” para ser um sucessor direto de “The Spirit”, deveria ter entendido que isso não bastava para chamá-lo de herdeiro de Eisner, deste Eisner que entendia tão bem o coração humano. Se algum autor contemporâneo pode assumir este papel, este alguém é Craig Thompson, o norte-americano responsável pela pungente obra Retalhos. Totalmente autobiográfica, a história se passa sob o frio do Wisconsin, alternando lembranças da infância do autor, na qual dividia a cama (e as aventuras e desventuras) com o irmão mais novo, e de sua adolescência, quando conheceu a primeira namorada, Raina. A arte usa enquadramentos inusitados e uma linha narrativa gráfica que fariam Eisner ficar orgulhoso. Pura poesia visual.

Descobrindo seus dotes artísticos, Craig se via constantemente oprimido pela religião de seus pais, que lhe colocavam diante de um Deus rancoroso e opressivo, sempre com a ameaça do inferno ao seu redor. De maneira intimista e sutil, ele tenta exorcizar os fantasmas de um passado repleto daqueles pequenos abusos e crueldades que papais e mamães imaginam que são pouca coisa se comparados aos seus dias de trabalhado suado – mas que deixam marcas para sempre na cabeça dos pequeninos. É quando Craig passa a questionar seu futuro, sua coragem, seus sentimentos, sua vocação. Em um dado momento, depois que ele e Raina consumam o amor e depois tentam descobrir como se relacionar à distância, o escritor mostra um brilhantismo tamanho que faria Miller esconder a cabeça como um avestruz envergonhado. A última conversa dos dois ao telefone chega a trazer lágrimas aos olhos de tão real.


Uma boa dose de realidade também é o que você obtém ao ler Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi. Já transformada em uma cultuada animação, a obra completa só caiu agora nas minhas mãos, depois de ouvir uma série de comentários positivos de amigos e especialistas em HQs – mas não deixou de ter o impacto de uma bomba atômica. Com uma arte simplória em P&B, de traços toscos e quase infantis (lembrando, como bem salientou Eduardo Nasi, os cordéis nordestinos), Marjane revela como foi a sua infância em meio à revolução islâmica do Irã. Filha de pais abastados e politizados, que não concordam com o autoritarismo religioso que se impõe no país. Não deixa de ser impactante ver como foi que uma garota aparentemente comum fez suas descobertas – drogas, bebida, sexo – de maneira absolutamente diferente numa sociedade muçulmana.

Comportando-se de maneira subversiva, Marjane acabou indo estudar na Europa, onde se deparou com as inúmeras diferenças culturais e viveu com uma série de conflitos internos entre a sua visão de Deus (assim como Craig Thompson em “Retalhos”, vale lembrar) e todas as tentações de um universo radicalmente diferente de música, bebidas e relacionamentos livres. Acabou transformando-se num monstro, irreconhecível e vergonhosa para si mesma – e teve que retornar ao Irã, onde enfim descobriu quem era de verdade. Marjane , Craig e todos os personagens de Eisner são pessoas de verdade. Podem não usar uniformes multicoloridos. Mas travam batalhas dignas dos maiores heróis. Para eles, qualquer “Crise Infinita” ou “Invasão Secreta” é fichinha.


Nova York – A Vida na Grande Cidade
Roteiro e Arte: Will Eisner
Número de páginas: 440
Editora: Quadrinhos na Cia.

Retalhos
Roteiro e Arte: Craig Thompson
Número de páginas: 592
Editora: Quadrinhos na Cia.

Persépolis
Roteiro e Arte: Marjane Satrapi
Número de páginas: 352
Editora: Companhia das Letras

.: MÚSICA .: Review CD .: Good Blood Headbanguers (Massacration)

Os puristas do heavy metal devem estar enlouquecidos – afinal, os humoristas do grupo Hermes & Renato estão lançando o segundo álbum do Massacration, sucessor de “Gates of Metal Fried Chicken of Death” (2005). “Mas já acabou a graça desta piada, não?”, podem opinar alguns, prestes a roer os cotovelos de tanto ódio. Quem já assistiu aos episódios inéditos do programa dos caras na MTV, no entanto, sabe que eles continuam afiadíssimos em suas paródias musicais (vide o hilariante reggae do Artesanation, por exemplo). E sabemos que, com fãs de rock pesado em sua formação, a sátira metálica do Massacration é o ponto alto do trabalho dos caras. Afinal, eles conhecem os clichês tão bem quanto eu e você. Por que não deixar os sujeitos continuarem a brincadeira, então? Agora imagine isso produzido pelo Roy Z. Temos então um álbum de rock-comédia do qual é possível rir e com o qual é possível bater cabeça para valer...se você for um banger com senso de humor, é claro.

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16/11/09

.: MÚSICA .: Review Show .: Twisted Sister (São Paulo/SP)

E não é que o Dee Snider estava certo, rapaz? Na coletiva de imprensa brasileira realizada na última sexta-feira, dia 13, o vocalista do Twisted Sister fez questão de deixar claro que, apesar do humor e das maquiagens, o quinteto não é uma “banda comédia” como o Spinal Tap ou o recente Steel Panther - e tampouco pode ser comparado àquela imensa safra de bandas de hair metal que surgiram na Califórnia. “Ao vivo, somos muito melhores do que todos eles”, disse, largando a modéstia do lado de fora. Certíssimo, Mr.Snider. Quando a banda subiu no palco da casa paulistana Via Funchal neste sábado, dia 14, provou que não estava aqui para brincar.

Em sua primeiríssima apresentação no nosso país, a recém-reunida formação original do Twisted Sister se entregou de corpo e alma, conquistando o público presente com carisma, simpatia, bom humor, respeito e uma vitalidade impressionante. Um show de rock divertido e empolgante até dizer chega, exatamente como todos os shows de rock deveriam ser. Uma lição dos veteranos para esfregar na cara de muito moleque que vive sendo saudado como “a mais nova revelação do rock”.

Se os parágrafos acima não foram o suficiente para convencer você, que não foi ao show, de que aconteceu uma apresentação memorável e você simplesmente perdeu porque ficou em casa vendo o “Zorra Total”, tudo bem: a gente conta todos os detalhes. Não diga que eu não avisei.

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Foto: Alex Almeida/UOL

.: QUADRINHOS .: Invasão Secreta

Brian Michael Bendis continua sendo um dos meus escritores contemporâneos favoritos. Mas é preciso dizer que, ao acumular a responsabilidade por uma dezena de títulos dentro da Marvel Comics, em algum momento ele não agüentaria tanta pressão e fraquejaria, mostrando um trabalho irregular – o que, para quem acompanha a trajetória dele em “Ultimate Spider-Man”, parecia ser impossível. Mas não é. E a prova é justamente a megassaga “Invasão Secreta”, que acaba de ser completada aqui no Brasil. As histórias de “Invasão Secreta” que vinham sendo publicadas em “Novos Vingadores” conseguiram oferecer um painel muito mais interessante do que este apresentado na minissérie principal. E olha que o roteirista é o mesmo!


A tentativa de dominação mundial dos skrulls até que começou bem, amarrando diversas pontas soltas de outros arcos anteriores – de “Dinastia M” a “Guerra Civil – e apresentando os alienígenas transmorfos sob uma ótica quase religiosa. Mas à medida que fomos chegando às edições 4 e 5, criou-se uma espécie de “barriga” na série principal, com uma trama que não parecia deslanchar. Os número 6 e 7, no entanto, recuperaram o fôlego de maneira genial, preparando o cenário para uma batalha final que contou com uma atuação fantástica de Clint Barton pegando o arco e flecha pela primeira vez desde que assumiu o uniforme de Ronin. Mas então chegou o último número, cuja capa você vê ao lado. E a minha única forma de descrevê-lo é como “bem mais ou menos”.

A ideia de colocar Norman Osborn como o herói da história toda, desacreditando Tony Stark de vez e fazendo o sujeito cair em desgraça absoluta, é ótima. Mas o jeito como tudo acontece é rápido demais e não deixa o leitor 100% convencido de que o presidente dos EUA compraria o lado do ex-Duende Verde de maneira tão simplória. A história secundária, estrelada pelo repórter Ben Urich, oferece uma visão muito mais interessante da trama, colocando-o frente a frente com o homem cuja polêmica biografia ele escreveu.

A explicação para que os heróis e coadjuvantes que tinham sido substituídos pelos skrulls ainda estejam vivos não chega a ser ruim, embora possa ser contestada pelos mais xiitas – mas é fato que te deixa com aquela sensação de “putz, mas não dava para ser mais ousado e deixar estes caras mortos de vez?”. Por sinal, senti uma falta tremenda de ousadia na escolha dos personagens substituídos pelos verdinhos. Podiam dizer, sei lá, que o Soldado Invernal era um skrull. Isso sim ia ser uma virada na trama – o cara que assumiu o manto do Capitão América é um ET com memórias falsas? Ouch. Com exceção da Mulher-Aranha, todos os escolhidos são do segundo escalão da editora. O único ponto de real força dramática foi quando Jessica Jones percebeu que tinha deixado sua filha com o skrull que se fazia passar pelo mordomo Jarvis. Boa sacada ter deixado isso como fio solto para as próximas tramas.

Outro ponto positivo é perceber que Bendis também entende que o Thor é um deus (pode parecer óbvio, mas para muitos roteiristas, não é!) – e, como tal, acabou pendendo a balança na batalha final para o lado dos terráqueos. E a lição de moral que ele dá no outrora amigo Tony Stark é fantástica, um diálogo que quase nos faz relevar o restante dos defeitos da edição. Mas é apenas “quase”.

Que venha “Dark Reign”. Porque aquela splash page com todos os grandes malvadões da Casa das Ideias reunidos é bem legal. Mas resta saber se ela é apenas um pôster bonito para um filme ruim.

,: QUADRINHOS .: Extra! Extra! Extra!

- John Cusack está interessado em um papel no filme do “Preacher”, que terá direção de Sam Mendes (“Beleza Americana”). Ele estaria de olho no personagem principal, Jesse Custer, ou quem sabe no vampiro irlandês Cassidy.


- Por falar em escalações para filmes baseados em HQs, continuam fortes os boatos de que a Gata Negra (ao lado) deve ser personagem integrante de “Homem-Aranha 4” – com a bonitinha e talentosa Rachel McAdams fazendo testes para o papel e tudo mais. O site britânico Hey U Guys, que afirma ter uma fonte secreta e confiável, ainda joga caldo no feijão ao revelar que, no roteiro, Felicia Hardy não seria filha de um vilão, mas sim do novo dono do Clarim Diário. Sim, um personagem similar a Charles Dexter Bennett, que tiraria J.Jonah Jameson do comando do jornal.

- Francis Lawrence, diretor de “Eu Sou a Lenda” e “Constantine”, deve ser o cineasta responsável pela adaptação para os cinemas de Sargento Rock. Notícia bizarra? O roteiro de Chad St. John vai colocar o personagem, que combateu na Segunda Guerra Mundial, ambientado no futuro. Por que, senhores executivos, por quê? Quanta bobagem.

- A série “Milestone Forever” vai colocar de vez os personagens do selo Milestone dentro do Universo DC. Selo autoral com personagens e criadores étnicos (quase todos os negros) criado nos anos 90 para aumentar a diversidade racial nos quadrinhos de heróis, o Milestone foi responsável por vigilantes como o Static Shock (Estático). Vocês devem se lembrar dele como a estrela do desenho animado “Super Choque”. Outros títulos originalmente publicados pelo selo eram “Icon”, “Hardware”, “Shadow Cabinet” e “Blood Syndicate”.

- Deixa eu explicar o que está rolando com o Justiceiro nos EUA. Existe a versão do selo Marvel Max, com histórias adultas e sem precisar prestar contas ao restante da cronologia da editora. E existe a versão que interage a cronologia normal, encontra com o Demolidor, com o Homem-Aranha e demais fantasiados. Então. Esta versão foi atacada pelo Daken, filho de Wolverine que trabalha para Norman Osborn. E acabou completamente retalhada, com braços e cabeça retalhados. O sujeito será então reconstruído por um supervilão, transformado em um Frankenstein combatente do crime. Pois é. Para quem já virou um homem negro e depois foi transformado em um anjo celestial, é praticamente um passeio no parque.

- Em “Image United”, a minissérie que vai reunir os fundadores da editora e seus respectivos personagens, o vilão será ninguém menos do que Al Simmons, primeiro alter-ego do Spawn. Se você anda meio afastado desta turma, eu explico a confusão: recentemente, Simmons se suicidou, por motivos ainda não revelados. Outro humano, Jim Downing, assumiu a máscara, a capa e as correntes do Spawn. E um tempinho no inferno acabou mudando as coisas na cabeça de Simmons.

- Em “Idol”, oitavo episódio da 9ª temporada da série “Smallville”, os irmãos Zan e Janya, mais conhecidos como os Super-Gêmeos, vão dar as caras na terra de Clark Kent. Você se lembra dos gêmeos, do desenho dos “Superamigos”. A irmã virava qualquer bicho e o irmão virava qualquer baboseira de gelo. Nesta mesma temporada, ao final do arco de histórias que vai mostrar a Sociedade da Justiça, será apresentada ninguém menos do que Amanda Waller – a mulher mais durona da DC, que chefiava o Esquadrão Suicida e chegava a peitar o Batman. Ela será interpretada por Pam Grier, a “Jackie Brown” de Quentin Tarantino.

10/11/09

.: MÚSICA .: Review Show .: Maquinária Rock Fest 2009

Dizer que as apresentações do Faith No More e do Jane’s Addiction foram os grandes momentos do primeiro dia do Maquinária Rock Fest 2009 seria recorrer a um expediente óbvio. O festival conseguiu ser muito mais do que isso. Com um investimento agressivo em organização, infra-estrutura e, é claro, no porte das atrações internacionais, o Maquinária saiu do nicho do rock pesado – como foi o caso de sua primeira edição, nitidamente voltada para os headbangers iniciados – e abriu as portas para a diversidade. Sob o calor escaldante deste sábado, dia 7 de novembro, o público paulistano foi recebido na Chácara do Jockey ao som de AC/DC, Nirvana e Bob Marley (!), mostrando que todos podem conviver muito bem juntos, sim senhor. Era possível ver no gramado metalheads cabeludos e vestidos de preto, patricinhas de salto alto e maquiagem, indie rockers multicoloridos, emos e até senhores e senhoras distintos em trajes sociais. Valia tudo e todo mundo era bem-vindo.

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* Foto de Mike Patton (Faith No More) tirada por Charline Messa, do Music Boulevard

.: PERSONAGEM DA SEMANA .: Schnitzel

Radda, Radda, Radda!

(Se você não conhece este personagem, a coisa mais divertida do desenho animado "Chowder", não sabe o que está perdendo. Aliás, ao lado de "As Trapalhadas de Flapjack", trata-se de uma deliciosa pérola de non-sense. Ambos são exibidos no Cartoon Network)

06/11/09

.: TELEVISÃO .: Glee

"Não, ele não são otários. Nós todos somos otários. Todos desta escola, deste bairro, até mesmo da cidade. Somos todos otários"
(Finn Hudson)


Nesta quarta-feira (4), antes da Fox começar a exibição de sua nova série "Glee", entrou uma daquelas cartelas da classificação indicativa exigidas pelo Ministério da Justiça. E na parte referente ao gênero, o programa era descrito como "Comédia Drama Musical". Pode parecer esquisito, surreal até, misturar as três coisas. Mas "Glee" faz isso mesmo - e muito bem. O primeiro episódio é muitíssimo melhor do que toda a expectativa criada pelos vídeos promocionais e pelos comentários positivos vindos de terras estrangeiras faziam crer.

Os créditos já dão um indício do que esperar - já que a criação de "Glee" ficou a cargo de Ryan Murphy, responsável pelo mordaz humor negro de "Nip/Tuck". O que ele faz é reunir esta pegada ácida com um retrato nada politicamente correto da adolescência como ele começou a ver em "Popular" (1999) - por sinal, uma série bem interessante, mas que infelizmente teve vida curta. "Glee", a exemplo do filme "Pequena Miss Sunshine", é uma deliciosa crítica a esta sociedade que quer que todos sejamos vencedores, que sempre estejamos em primeiro lugar, que nos apresentemos sempre lindos, asseados e maravilhosos.


Na série, o professor de espanhol de uma típica escola suburbana resolve assumir a direção do clube do coral, colocando a molecada para cantar. Inicialmente, ele acaba atraindo apenas os perdedores, os outsiders rejeitados que o restante dos estudantes ignora. Estão lá o nerd de cadeira de rodas, a japonesa from hell, o gay fashionista e até mesmo a maluca criada desde pequena para competir em todos os festivais de canto e dança existentes. A dinâmica entre eles funciona bastante, em especial quando o quarterback do time de futebol americano também se junta ao time - de maneira pouco ortodoxa, é verdade. E o professor enfim percebe que encontrou uma atividade pela qual se apaixonou de verdade, por mais que sua esposa não concorde tanto com a dedicação que ele oferece a este grupo de alunos...

E sobre o fato de ser um musical, gênero que faz algumas pessoas torcerem o nariz...por favor, não permita que isso o afaste de "Glee". É certo que eu, por natureza, adoro musicais e toda esta coisa performática. Mas aqui, as canções são sempre releituras bem-humoradas que vão de Aretha Franklin aos hard rockers do Journey, passando por Amy Winehouse, Queen, blues, country...Uma trilha sonora de responsa e que está absolutamente bem integrada à trama. Não tem essa de pessoas totalmente desconhecidas começando a cantar do nada, no meio da rua. Em resumo? "Glee" é tudo que "High School Musical" queria ser. Ou que pelo menos deveria ser, com personagens que poderiam existir de verdade (e com os quais qualquer um pode se relacionar) e uma incrível dose de respeito à inteligência de quem está do outro lado da telinha.

Serviço:
Todas as quartas-feiras, às 22h, na Fox (TV paga).

.: CINEMA .: Distrito 9

Tá bom, juro que até entendo a frustração de algumas pessoas com Distrito 9, ficção científica produzida por Peter Jackson e dirigida pelo estreante Neill Blomkamp. O tom documental dos trailers e vídeos promocionais é usado apenas em parte da projeção - em especial na primeira meia-hora, que ajuda a apresentar o personagem principal e a estabelecer rapidamente todo o conceito por trás de uma comunidade de alienígenas que chega à Terra e acaba sendo segregada em um bairro-favela de de Johannesburgo, na África de Sul. Há, inclusive, quem reclame justamente do ritmo do filme, que seria acelerado demais. E existem aqueles que citam a injeção de ação e adrenalina nas sequências finais como um aspecto hollywoodiano demais.

Eu disse que entendo tudo isso. Mas não disse que concordo. Pra mim, "Distrito 9" entrou disparado entre os melhores filmes do ano, bem do ladinho de "Bastardos Inglórios". Como sou preguiçoso, fui até o meu post anterior sobre o filme e dei uma copiada/adaptada básica na descrição da trama, apenas para não deixar perdidos aqueles que chegaram agora:

"Na década de 90, os humanos recebem de braços abertos, sobre a cidade de Johannesburgo, na África de Sul (sim, os ETs não escolheram Nova York desta vez!), uma gigantesca espaçonave com uma população alien em busca de abrigo. Vinte anos depois, a situação mudou radicalmente. O campo no qual foram alocados, o chamado Distrito 9, transformou-se em um gueto militarizado e miserável, no qual estes seres são confinados e tratados com desprezo e preconceito. Em 2010, uma megacorporação armamentista tem seus próprios planos para as defesas dos extraterrestres, buscando construir armas com a tecnologia de fora do planeta. E quando Wikus van der Merwe (Sharlto Copley), agente no comando da operação, descubre a situação desumana na qual vivem estas criaturas, acaba colocando a si mesmo em risco ao executar um plano inesperado, envolvendo um misterioso vírus. A premissa do filme é toda baseada em "Alive in Joburg", um curta-metragem dirigido pelo próprio Blomkamp e lançado em 2005 e que fala sobre a interação social entre os aliens e os habitantes da capital sul-africana - onde o diretor passou a maior parte de sua infãncia durante o apartheid"

Já entendeu do que se trata, certo? Pois bem. O timing do filme pode parecer um tanto acelerado um alguns momentos? Vá lá. Mas não acho que seja o tipo de coisa que prejudica a história. Aliás, acho que tanto isso quanto a mistura entre as linguagens documental e cinematográfica padrão só ajudam a dar mais agilidade, deixando pequenos pedaços propositalmente sem explicação para que a imaginação do espectador trabalhe por si mesma. E quanto à ação no final, ela cai como uma luva para os fãs de ficção científica, que no fim das contas também gostam de sua parcela de bons efeitos especiais, representando uma subida visível na linha narrativa e sem se desviar em nenhum momento do propósito de provocar com uma metáfora, por vezes até pouco sutil, a respeito do preconceito. Quando um exoesqueleto mecânico aparece em cena, Michael Bay deve ter se agachado em posição fetal e chorado. Muito.

Sharlto Copley merece uma menção especial. O camarada, produtor do curta original e conhecido por ser um incansável fomentador do cinema independente no cenário sul-africano, está em seu primeiro papel no cinema (tudo que ele tem em "Alive in Joburg" é uma ponta). E está irrepreensível, adicionando as doses certas de emoção e carisma a um papel que não é nada fácil e que poderia cair tranquilamente no ridículo (dizer mais seria um baita spoiler). O que eu sei é que Sharlto deveria dar aulas de interpretação para Keanu Reeves e Vin Diesel - isso só para citar alguns dos intérpretes milionários que interpretam menos do que o meu dedão da mão esquerda.

O filme acerta também ao não generalizar no retrato dos alienígenas, cujos motivos da presença aqui na Terra nunca são revelados. A única coisa que fica clara é que não se trata de uma missão de conquista - pelo menos neste primeiro momento, tudo bem. Fruto de um trabalho fenomenal da equipe de efeitos visuais da WETA, eles podem ser tão bons quanto maus, assim como os seres humanos. Li em alguns fóruns alguns sujeitos dizendo "mas como estes aliens podiam ser subjugados pelos traficantes nigerianos se tinham armas tão potentes?". Senhores espertinhos, assistam ao filme de novo e prestem atenção na parte em que se explica que a casta de ETs que ficou por aqui é uma casta de operários, que só sabem seguir ordens e que estão perdidos como formigas sem sua rainha. Eles são, em sua maior parte, selvagens que jamais se organizariam para um levante, para tentar conquistar este planeta estranho. Tudo que eles são é um bando de criaturas que acabam enxotadas para um canto escuro e sujo, onde atrapalhem menos. Não te lembra nada? :-)

Falando nisso, "Distrito 9" deixa uma lição final: não temos que ter medo de uma invasão vinda de fora, de outras galáxias. Temos é que ter medo de nós mesmos. Porque bastou o ser humano se deparar com uma raça inteligente diferente da sua para demonstrar que consegue ser ainda mais visceralmente escroto do que a gente já sabia pelas manchetes dos jornais.

Distrito 9 (District 9)
Direção: Neill Blomkamp
Roteiro: Neill Blomkamp & Terri Tatchell
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, John Sumner, Vanessa Haywood, William Allen Young, Nick Blake