.: QUADRINHOS .: Alô, alô, Gilberto Dimenstein!
Paulo Francis era um sujeito que tinha gosto pela polêmica. Era homem de opiniões fortes, nem sempre das mais fáceis de se acompanhar, mas também gostava de colocar lenha na fogueira, de gerar discussão com suas frases de efeito, atiradas como bombas de fumaça para desnortear as pessoas. Paulo Francis disse, certa vez, que achava os quadrinhos uma sub-arte. Eu não concordo, como pode ser notado por todo este blog. Mas continuo gostando do cara, Odin o tenha. Posso não estar de acordo com algo que ele disse, cada um tem a sua opinião, liberdade total. Isso não me faz respeitar menos ou mais o Francis como profissional. O mesmo acontece com o Gilberto Dimenstein.
Nesta quinta (3), Dimenstein escrever um curto comentário em seu espaço na área de colunas do site da Folha de S.Paulo, criticando a decisão do Governo federal de incluir jornais, revistas e afins como parte das atribuições do chamado vale-cultura. "Comentei aqui por diversas vezes que considero o vale-cultura um previsível desperdício", disse, para depois completar: "Desde ontem, meu receio aumentou ainda mais, pela possibilidade de que, com esse benefício, mulher pelada também seja cultura. Ou gibi". Com "mulher pelada", ele fala sobre a possibilidade da Playboy poder ser comprada com o vale-cultura. Continuo tendo o maior respeito pelo Dimenstein, um sujeito cuja atuação no âmbito educacional e social é louvável. Mas preciso dizer que, desta vez, ele falou uma besteira sem tamanho. Ele deu a opinião dele e eu, no blog que me pertence, dou a minha.
Dimenstein, concordo que o vale-cultura é um projeto deveras estranho, desde o seu conceito inicial. Acho que o dinheiro que será investido nele funcionaria melhor sendo revertido para a educação e para projetos culturais que permitam a inclusão social, projetos culturais gratuitos, na periferia. Seria uma forma mais inteligente de colocar as classes menos favorecidas em contato com a cultura. Consumindo com integração. Maaaaaaaaas...com isso dizer que gibis não podem ser considerados cultura, vamos devagar com o veneno. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
E ainda é preciso lembrar que quadrinhos são usados há décadas como ferramentas educacionais, meu caro. O mestre norte-americano Will Eisner que o diga. Caso queira mais detalhes, recomendo que converse com o colega Paulo Ramos, do Blog dos Quadrinhos. Ele até escreveu um livro sobre o assunto, que achas de dar uma lida nele?
Quadrinhos ganharam um baita espaço nas livrarias, você tem ido a alguma recentemente? E títulos de excelente qualidade têm inundado as bancas. Aliás, nem precisa ir muito longe. Mesmo os quadrinhos de super-heróis e/ou da Turma da Mônica, um verdadeiro patrimônio nacional, podem sim ser considerados cultura. São um tipo de leitura que desafia a inteligência, que ajuda a desenvolver o gosto pela leitura. Não são poucos os estudos que comprovam isso, inclusive. Não é necessário ter a profundidade de um Machado de Assis para instruir e/ou provocar o leitor. Ou para você cultura é apenas aquilo do chamado âmbito erudito? Apenas música clássica, MPB, samba e bossa nova podem ser considerados cultura? Rock não é um fenômeno cultural que pode transformar uma comunidade? Ou mesmo o rap? Ou quem sabe o funk carioca, gostos pessoais à parte? Tsc, tsc. Tem alguém aí precisando mesmo de uma reciclagem. Cultura não pode ter esta definição tão restrita. Não faz bem a ninguém.



Apesar de ser ávido leitor de gibis de super-heróis, preciso dizer que sou um apaixonado por histórias em quadrinhos. Ponto. Nunca deixei que qualquer Batman ou Homem-Aranha me impedisse de ler também outros gêneros – em especial aqueles mais adultos, urbanos e contemporâneos, que deixam de lado os fantasiados superpoderosos para falar de seres humanos comuns. E como observador da vida cotidiana e dos personagens típicos de uma grande cidade, não tinha ninguém melhor do que Will Eisner. Ganhei de presente de aniversário de casamento o encadernado Nova York – A Vida na Grande Cidade, que reúne quatro graphic novels do mestre da Nona Arte: “Nova York - A Grande Cidade”, “O Edifício”, “Caderno de Tipos Urbanos” e “Pessoas Invisíveis”.








